Opinião

Gratidão e Misericórdia: o vigor espiritual dos Arautos do Evangelho no Brasil contemporâneo

O aspecto mais impressionante dos Arautos do Evangelho é a capacidade de unir contemplação e ação, com uma vasta gama de iniciativas sociais

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Foto: Divulgação

Por Ives Gandra Martins*

Em um tempo marcado por incertezas culturais e transformações aceleradas, poucos acontecimentos conseguem reunir, com tanta eloquência, dimensão espiritual, relevância social e beleza simbólica quanto a recente ordenação sacerdotal promovida pelos Arautos do Evangelho. Realizada na imponente Basílica Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras (SP), a cerimônia que elevou 26 diáconos ao sacerdócio, sob a imposição das mãos do Dom Raymundo Damasceno Assis, não foi apenas um rito litúrgico: foi a expressão viva de uma instituição em pleno florescimento.

Mais do que números — embora estes sejam eloquentes —, o que se testemunhou foi a consolidação de um carisma que, ao longo das últimas décadas, tem se afirmado com vigor no cenário religioso e cultural, tanto no Brasil quanto no exterior. A ordenação de novos sacerdotes representa o coroamento de anos de formação exigente, que integra vida espiritual, rigor acadêmico e experiência pastoral, formando homens preparados para responder às demandas profundas do mundo contemporâneo.

Há, nesse crescimento, algo que transcende a lógica meramente institucional. Trata-se de uma vitalidade que brota de convicções espirituais sólidas e de uma visão clara da missão: evangelizar por meio da beleza, da disciplina, da formação e da presença. Os Arautos do Evangelho compreenderam, com rara sensibilidade, que o homem moderno — muitas vezes fragmentado e carente de sentido — necessita não apenas de discursos, mas de experiências que elevem a alma e restituam a esperança.

A diversidade dos novos sacerdotes — provenientes de países como Brasil, Espanha, Portugal, Argentina, Colômbia e diversas nações da América Central — revela outro traço marcante: o caráter autenticamente internacional da instituição. Trata-se de uma Igreja que se expande não por imposição, mas por atração; não por estratégias de poder, mas pela força silenciosa do testemunho.

A cerimônia em Caieiras, marcada por uma liturgia de grande solenidade e riqueza simbólica, ofereceu também um raro contraponto ao utilitarismo que domina tantas esferas da vida contemporânea. Ali, cada gesto — a imposição das mãos, a unção com o Santo Crisma, a entrega do cálice — recordava que há realidades que não podem ser reduzidas ao imediato ou ao mensurável. O sagrado, quando vivido com autenticidade, continua a exercer uma força de atração que nenhuma modernidade conseguiu suplantar.

Mas talvez o aspecto mais impressionante dos Arautos do Evangelho seja sua capacidade de unir contemplação e ação. Ao lado da formação religiosa e litúrgica, desenvolvem uma vasta gama de iniciativas sociais, culturais e educativas: projetos com jovens, ensino de música e arte sacra, missões evangelizadoras, retiros espirituais e ações junto a populações vulneráveis. Trata-se de uma presença concreta, que não se limita ao templo, mas se estende à sociedade.

Nesse sentido, a recente ordenação não representa apenas um evento interno, mas um sinal de esperança mais amplo. Em meio a um cenário frequentemente descrito como de crise de valores, o surgimento de novas vocações sacerdotais — especialmente em número significativo — aponta para uma realidade muitas vezes ignorada: a fé continua viva, operante e capaz de gerar frutos.

As palavras pronunciadas pelos próprios ordenandos sintetizam, com notável profundidade, o espírito que anima essa trajetória: “Gratidão e Misericórdia”. Gratidão por um chamado que não se explica por méritos humanos; misericórdia por uma eleição que ultrapassa fragilidades e limites. Nessa dupla dimensão, encontra-se a chave para compreender não apenas o sacerdócio recém-inaugurado, mas a própria identidade dos Arautos do Evangelho.

Em última análise, o que se viu na Serra da Cantareira foi mais do que uma celebração religiosa. Foi a manifestação de uma convicção: a de que, mesmo em tempos desafiadores, a busca pelo transcendente permanece como uma das forças mais profundas da experiência humana. E instituições que sabem cultivar essa busca, com seriedade e beleza, continuam a exercer um papel decisivo na construção de uma sociedade mais elevada.

Se o futuro da fé no mundo contemporâneo ainda é tema de debate, eventos como este oferecem uma resposta concreta — não teórica, mas vivida. Uma resposta que ecoa, silenciosamente, a partir de um altar: a de que a esperança, quando enraizada no espírito, não apenas resiste — ela floresce.

*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Feco mercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).