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Decisão dos EUA sobre PCC e CV é interferência estrangeira no Brasil, diz comissão da OAB-SP

Para a comissão de segurança pública da entidade, medida afasta-se das respostas que a própria sociedade brasileira demanda

eua e brasil
Foto: Alan Santos/Presidência da República

A seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) classificou a decisão dos Estados Unidos em designar como terroristas as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como possível interferência estrangeira em assuntos domésticos. Por meio de nota, a comissão de segurança pública da entidade criticou a medida.

Leia abaixo a nota da entidade:

“A Comissão de Segurança Pública compreende o cenário desafiador colocado pela expansão do poder de articulação de tais grupos. A medida anunciada, por outro lado, parece ir na contramão dos instrumentos mais efetivos de combate ao crime organizado.

O governo federal tem empreendido diversos esforços, inclusive com a atual Presidência dos Estados Unidos da América, visando o estabelecimento de protocolos mais rígidos para coibir o tráfico internacional de armamentos. Em abril, foi anunciada uma Cooperação Mútua entre a Receita Federal Brasileira e o U.S. Customs and Border Protection para interceptação de armas e drogas. Ainda nesta semana, observamos a deflagração da segunda fase da Operação Carbono Oculto, que busca coibir a penetração do crime organizado no sistema financeiro nacional, revelando as possibilidades que a atuação institucional conjunta das forças de inteligência da administração pública brasileira pode desempenhar no combate à expansão da atuação criminosa.

A medida anunciada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos revela, para além do risco à continuidade dos trabalhos em curso, um maior risco de instrumentalização política e eleitoral da pauta, prejudicando ainda mais o já combalido campo de debates na área da segurança pública.

Como se não fosse o bastante, a designação de tais grupos como organizações terroristas reacende o alerta para eventual interferência estrangeira em assuntos domésticos, quer por meio de atuação militar direta em solo nacional, ou por meio de imposições de novas sanções econômicas, com o risco de interferência direta no sistema financeiro nacional, bloqueio de ativos e restrições a transações financeiras.

Pesquisa recente divulgada pelo Instituto Sou da Paz indica que a maior parte da população brasileira, embora preocupada com a insegurança urbana, deseja soluções baseadas em inteligência, em preparo das forças policiais e no controle de armas de fogo. A designação dos grupos como organização terrorista, ao deslocar o foco para instrumentos de política externa e eventualmente militares, afasta-se das respostas que a própria sociedade brasileira demanda.

Cabe à OAB, como instituição guardiã do Estado Democrático de Direito, alertar quando iniciativas, ainda que bem-intencionadas, ameacem os instrumentos legítimos e eficazes de que o Brasil dispõe para enfrentar o crime organizado sem abrir mão de sua autonomia.”