Opinião

Bets, apostas online e a Copa do Mundo

Valores investidos para popularizar a atividade são elevados e o retorno coloca o Brasil como o quinto país em faturamento com apostas digitais no mundo; somente em 2025, os ganhos contabilizam R$ 22 bi

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Por Antonio Gonçalves* — É inegável que a Copa do Mundo de Futebol contagia e inflama a maior parte da população brasileira. E, através da principal atração esportiva do país, as bets avançam com propagandas massificadas, a fim de associar o ato de torcer ao de apostar. Coincidência? Não, estratégia.

Previsões, anúncios, e inserções publicitárias recorrentes com uso de atores e personalidades conhecidas são algumas das táticas das bets para atrair mais e mais apostadores a suas plataformas.

Em época de Copa do Mundo, quem nunca participou do bolão da firma? Valendo dinheiro, churrasco entre os amigos e até troca de figurinhas “cobiçadas” para completar o álbum. É um ritual “sagrado” para uma parcela dos brasileiros. Agora, com as bets, soma-se a essa prática a possibilidade de aumentar seus ganhos e demonstrar seu conhecimento futebolístico e, com isso, lucrar. Será?

As bets são uma realidade no país e estão presentes no imaginário da população brasileira. Muitos têm perdido fortunas, proporcionalmente a seus ganhos. Os valores investidos para popularizar a atividade são elevados e o retorno coloca o Brasil como o quinto país em faturamento com apostas digitais no mundo. Somente em 2025, os ganhos contabilizam R$ 22 bilhões de reais.

Qual a estratégia de popularizar e “fidelizar” o brasileiro como um consumidor assíduo das bets? Primeiro, o produto em si, com fácil acesso, sem complicação e democrático para gasto em todas as idades. Segundo, apresentar o produto e o associar e pessoas de reconhecimento público. Logo, as bets passaram a recrutar influenciadores e artistas em geral para fazer a propaganda e associar sua imagem ao mundo das apostas digitais. Exemplos não faltam: Neymar, Felipe Neto, Viih Tube, Gkay, MC Poze, Mel Maia, Gusttavo Lima, Wesley Safadão, Virginia Fonseca, Jojo Toddynho, Denílson, Ronaldo, Rivaldo, dentre muitos outros.

A fim de popularizar e difundir as marcas, bem como as atividades em si, a estratégia foi o investimento massificado de modo ostensivo. Por isso, muitas inserções comerciais nos meios de comunicação e, claro, estar presente na maior quantidade de eventos relacionados à principal atração nacional entre junho e julho, a Copa do Mundo. 

Os sites de apostas estão constantemente sendo divulgados em inserções televisivas, banners e demais veículos de comunicação, com ofertas de prêmios elevados a fim de atrair apostadores que buscam ganhos. Quando associada ao prazer, ao bem-estar, à recompensa e à expectativa de retorno imediato muitos aderem. 

Não é prática exclusiva do Brasil. Segundo levantamento do banco Barclays, a Copa do Mundo do Catar, em 2022, movimentou US$ 35 bilhões em apostas esportivas no mundo. Um crescimento de 65% em relação ao Mundial da Rússia, em 2018.

Se os ganhos das bets são exponenciais, na proporção, as perdas são preocupantes. E não apenas econômicas e sociais que já são alarmantes, como também a dependência psicológica e o estabelecimento do vício no jogo online.

O vício advindo da rotina das apostas causa prejuízos individuais que refletem na economia brasileira. Afinal, as perdas econômicas podem impactar e significar o término das economias do apostador, a depender da profundidade do vício. As consequências podem custar, inclusive, o emprego, com redução de renda e patrimônio e, em muitos casos, o problema demanda acompanhamento psicológico e clínico. Gastos e perdas para lidar com o vício de apostar e ter a ilusão do ganho imediato.

As bets se tornaram um negócio rentável para as empresas de apostas, para os meios de comunicação, as empresas, artistas, os patrocinados e demais envolvidos na atividade, exceto, evidentemente, para a população brasileira, que se endivida cada dia mais. Mais de 80% da população brasileira está endividada.

Não foram poucos os que gastaram o dinheiro do aluguel, postergaram o ingresso na faculdade, perderam bens móveis e imóveis e colocaram a saúde mental, a estabilidade familiar e social por conta do sedutor mundo das apostas.

Não por acaso, mais de 700 mil pessoas recorreram à plataforma de autoexclusão de apostas online, segundo o Ministério da Fazenda. Ao fazer a exclusão, o usuário pode escolher o período que ficará afastado e não poderá ser revertida antes do término da escola, que pode variar entre um e doze meses ou por prazo indeterminado; esta última a opção de 69% dos solicitantes.

Em tempos de Copa do Mundo, priorize a diversão, o falatório futebolístico, o churrasco, a vibração com a classificação da Seleção brasileira, porém, não comprometa seu futuro econômico, social e sua saúde mental por conta de apostas.

As promessas de ganhos são atraentes até se perceber a dependência e o custo psicológico, social e econômico das perdas. Largar o vício é muito mais difícil do que o ato de apostar. Por isso, não ingresse em um caminho de eventual ganho rápido e fácil que pode comprometer seu futuro, sua família e suas economias. Em tempo de Copa do Mundo, divirta-se, mas sem riscos ao bolso.

*Antonio Gonçalves é advogado criminalista. Pós-doutor, doutor e mestre pela PUC/SP e pós-doutorando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.