Patrimônio sem diagnóstico: o risco invisível às famílias brasileiras
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Opinião
Mais do que analisar números, o avanço das RJs exige reflexão sobre o ambiente econômico que o país oferece para quem produz, emprega e investe
*Por Rafael Brasil — O crescimento acelerado dos pedidos de recuperação judicial no Brasil deixou de ser um episódio isolado para se transformar em um dos principais sinais da pressão econômica enfrentada pelas empresas. O fenômeno atinge desde pequenos negócios até grandes grupos empresariais e expõe uma combinação preocupante: crédito caro, juros elevados, consumo enfraquecido e aumento contínuo dos custos operacionais.
Os números confirmam esse cenário. Dados da Serasa Experian mostram que 2025 registrou o maior volume de pedidos de recuperação judicial da história do país, com 2.466 empresas entrando em processo de reestruturação financeira. Entre os casos mais conhecidos estão gigantes como Americanas, Oi, Light, InterCement e Estrela, mas o problema também se espalha silenciosamente entre pequenas e médias empresas que enfrentam dificuldades para manter fluxo de caixa, acessar financiamento e sustentar operações.
Mais do que um simples aumento de empresas quebrando, o avanço das recuperações revela um ambiente de negócios cada vez mais sufocado financeiramente. Muitas companhias cresceram em um período marcado por juros baixos e ampla oferta de crédito entre 2020 e 2021.
Naquele contexto, expandir operações parecia viável e relativamente barato. O problema surgiu quando o cenário econômico mudou drasticamente. A alta da taxa Selic encareceu os financiamentos, reduziu os investimentos e comprometeu a capacidade de pagamento de empresas altamente endividadas.
Ao mesmo tempo, o consumo desacelerou. Famílias mais endividadas passaram a consumir menos, afetando diretamente setores como varejo, indústria e serviços. Para muitas empresas, uma equação ficou insustentável: receita pressionada de um lado e despesas financeiras cada vez maiores do outro.
No agronegócio, considerado durante anos um dos motores da economia brasileira, a situação também se agravou. Oscilações no preço das commodities, aumento do custo de produção e problemas climáticos intensificaram o endividamento de produtores rurais e empresas ligadas ao setor. Isso ajuda a explicar por que até segmentos tradicionalmente fortes passaram a recorrer à Justiça para reorganizar dívidas.
Apesar do impacto negativo que a expressão “recuperação judicial” ainda causa, é preciso compreender que o mecanismo não representa necessariamente o fim de uma empresa. Em muitos casos, trata-se justamente da tentativa de evitar uma falência desorganizada. A legislação brasileira evoluiu para permitir que empresas viáveis renegociem dívidas, preservem empregos e mantenham suas atividades enquanto buscam equilíbrio financeiro.
O problema, porém, está no momento em que muitas companhias recorrem ao instrumento. Grande parte chega ao processo já extremamente pressionada por bloqueios judiciais, execuções e falta de capital de giro, o que reduz significativamente as chances de recuperação efetiva. A dificuldade de planejamento financeiro e a demora na adoção de medidas preventivas ainda são obstáculos relevantes no ambiente empresarial brasileiro.
Também chama atenção a mudança cultural em torno da recuperação judicial. O mecanismo deixou de ser visto apenas como sinônimo de falência iminente e passou a integrar estratégias de reestruturação empresarial. Em mercados mais maduros, reorganizar dívidas antes do colapso é prática relativamente comum. No Brasil, essa visão começou a ganhar espaço, embora ainda exista resistência e estigma em torno do tema.
A tendência é que os pedidos continuem elevados ao longo de 2026 enquanto o país mantiver um cenário de crédito restrito, juros altos e baixa liquidez. Isso coloca a recuperação judicial no centro do debate econômico nacional não apenas como instrumento jurídico, mas como reflexo direto das dificuldades estruturais enfrentadas pelas empresas brasileiras.
Mais do que analisar números, o avanço das recuperações judiciais exige reflexão sobre o ambiente econômico que o país oferece para quem produz, emprega e investe. Quando empresas de diferentes portes e setores passam a depender cada vez mais de proteção judicial para sobreviver, o problema deixa de ser individual e passa a revelar uma fragilidade mais ampla da própria economia.
*Rafael Brasil é advogado especialista em recuperação judicial e sócio do escritório Brasil e Silveira Advogados
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