Notícias

O que levou a recuperação judicial da Tok&Stok e Mobly, gigantes do mercado de móveis?

Juros altos, retração do consumo de bens duráveis e riscos logísticos podem ampliar os desafios operacionais do grupo dono das duas marcas

tokstok
Foto: Divulgação

O Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, gigantes do mercado de móveis, anunciou nesta terça-feira (12/5) o pedido de recuperação judicial, de modo a reorganizar as dívidas e mitigar a crise econômica. A companhia informou uma dívida de cerca de R$ 1,1 bilhão e atribuiu a deterioração financeira à combinação de juros elevados, crédito restrito e queda no consumo de bens duráveis.

De acordo com Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Empresarial, o caso evidencia que o mercado de móveis ainda sofre os reflexos da mudança de comportamento do consumidor no pós-covid. “Durante a pandemia, houve uma explosão na demanda por móveis e itens de decoração por causa do home office e da permanência maior das pessoas em casa. Depois desse pico, houve uma natural desaceleração da demanda, por conta do fim do período pandêmico e retorno ao trabalho presencial, agravada pela inflação, pelo crédito caro e pelo endividamento das famílias”, afirma.

Conforme o especialista, a recuperação judicial pode funcionar como uma ferramenta para reorganizar as operações e preservar a continuidade das atividades, mas também traz impactos relevantes na relação com fornecedores, transportadoras e parceiros financeiros. “Empresas desse segmento dependem diretamente de cadeia logística eficiente, estoque bem estruturado e fluxo constante de entregas. Qualquer instabilidade financeira tende a gerar insegurança em fornecedores e operadores logísticos”, explica.

O próprio Grupo Toky pediu à Justiça a manutenção de contratos considerados essenciais para o funcionamento das operações, incluindo serviços de logística, transporte, sistemas digitais e computação em nuvem. A companhia também solicitou a liberação de cerca de R$ 77 milhões retidos por uma instituição financeira, alegando risco de colapso operacional e impacto no pagamento de salários.

Para Canutto, a logística se tornou um dos principais pilares estratégicos do varejo de móveis nos últimos anos, especialmente após a consolidação do e-commerce no setor. “Hoje, não basta apenas vender. O consumidor exige entrega rápida, rastreamento eficiente e previsibilidade, afinal, todas as plataformas de venda on-line também comercializam móveis e decoração. Em empresas de móveis, qualquer ruptura logística pode afetar diretamente a reputação da marca e aumentar o índice de cancelamentos e reclamações”, diz.

Isso exige que as companhias tenham gestão de estoque inteligente, capacidade de entrega rápida e estrutura financeira sustentável. “O cenário tende a favorecer empresas mais enxutas, tecnológicas, com forte presença online e menor dependência de crédito para crescer”, conclui o advogado.