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Opinião
Volume responde “o que aconteceu”; gestão responde “o que aconteceu valeu a pena”
Por Diego Avelino* — Vou começar com a parte desconfortável. Se o relatório de contencioso que chega à sua mesa todo mês está cheio de quantos processos entraram, quantas audiências e petições foram feitas, você não tem um relatório de gestão. Tem um comprovante de atividade. E provavelmente está pagando caro por ele.
A diferença não é semântica. Volume responde “o que aconteceu”. Gestão responde “o que aconteceu valeu a pena”. A maioria esmagadora dos relatórios que circulam entre escritório e departamento jurídico só sabe responder à primeira. O resultado é um gestor com dezenas de páginas de números na mão que fica mudo quando o conselho faz a única pergunta que interessa: o dinheiro investido em litígio está voltando em desfecho melhor?
Este texto não é sobre ferramenta. É sobre o que dá para medir numa carteira de processos e como transformar medição em decisão. Trate-o como uma régua: ao final, você saberá em segundos se qualquer relatório, do time interno ou de escritório contratado, te entrega informação ou apenas peso.
Atividade não é desempenho, e confundir os dois custa caro
A confusão entre as duas camadas é o pecado original. Veja uma evolução típica de sete meses, com números ilustrativos: a carteira abre janeiro com 460 processos ativos e, até junho, oscila entre 439 e 466 — aparentemente sob controle. As entradas contam outra história: saltam de 16 em março para 57 em abril e disparam no meio do ano, com 69 em junho e 87 em julho, enquanto as saídas não passam de 34 em mês nenhum. A base fecha julho em 508 processos, e os 24 encerramentos daquele mês nem de longe compensam o que entrou.
Esse acompanhamento já é melhor que a média, porque mostra fluxo e não só estoque: a base está inchando e o custo de gestão vai subir antes de qualquer resultado aparecer. Útil. E mesmo assim ainda é atividade pura. Ele não diz nada sobre se os 24 processos encerrados em julho foram encerrados bem ou se foram um desastre financeiro disfarçado de produtividade. Para saber isso, é preciso cruzar encerramento com desfecho e custo. É exatamente aí que noventa por cento dos relatórios desligam o motor.
As cinco perguntas que separam quem decide de quem arquiva
Reduzi a um teste de cinco perguntas o que separa um relatório que sustenta decisão de um que só ocupa espaço no e-mail. Se o material que você recebe não responde a elas, você está decidindo no escuro, por mais bonito que seja o gráfico.
1. Onde está o risco, não onde está o volume
A pergunta mais cara de errar. Frequência e valor quase nunca andam juntos, e quem aloca atenção por contagem de processos cuida com esmero do que não importa. Um corte ponderado por risco expõe a armadilha: a categoria mais frequente responde por 29% dos processos, com risco médio de R$ 20 mil — R$ 3 milhões somados. A segunda, com 17% dos casos a R$ 35 mil de média, chega aos mesmos R$ 3 milhões.
Uma demanda de baixo valor, 11% da carteira a R$ 10 mil por processo, não passa de R$ 550 mil. E um caso raro, 1% dos processos com risco médio de R$ 113 mil, acumula sozinho R$ 3,3 milhões — a maior exposição de todas. Os números são ilustrativos; a distorção, não.
Olhe de novo para o caso raro: 1% da carteira carregando risco somado maior que o da categoria campeã de volume. O relatório que conta processos esconde esse 1%. O que pondera por risco o coloca no topo da sua agenda, que é onde ele deveria estar. Se o seu material te faz priorizar pela frequência em vez do risco somado, ele está apontando a sua atenção para o lugar errado.
2. Quanto tempo o problema leva para virar processo
A média de meses entre o fato gerador e o ajuizamento é um diagnóstico operacional disfarçado de métrica jurídica — por isso quase ninguém a usa. Quando um tipo de demanda demora sistematicamente o dobro para ser judicializado, o problema raramente está no tribunal. Está num gargalo lá atrás: no atendimento que não resolveu, na negociação que travou, no passivo reconhecido tarde demais. Medido assim, o contencioso deixa de ser o fim da linha e vira um sensor que devolve à operação a chance de corrigir a causa antes que ela vire ação.
3. Como meu desempenho se compara a um benchmark
É a pergunta que expõe todo mundo, e por isso a que mais se evita. Um número de desfecho isolado não significa nada, porque não há régua. Ao lado de uma referência, muda o jogo: o fornecedor A fecha condenação média de R$ 27 mil; o fornecedor B, de R$ 15 mil; a média da carteira fica em R$ 21 mil. Também aqui, números ilustrativos.
Se dois fornecedores tratam carteiras comparáveis e um fecha condenação média 45% menor, o valor da hora deixou de ser o critério. O critério virou desfecho por real investido. E aqui vai o registro honesto que o mercado prefere não fazer em voz alta: este é exatamente o número que escritório evita produzir, porque coloca o próprio desempenho debaixo de uma régua pública. Um jurídico que exige esse corte obriga o fornecedor a jogar com as cartas na mesa. Se o seu escritório nunca te mostrou desempenho comparado, vale perguntar por quê.
4. O risco está provisionado na medida certa
Classificar um processo como crítico e parar aí é trabalho pela metade. A classificação precisa virar recomendação de provisão e ser confrontada com a que está registrada no balanço. Quando essa diferença aparece em número, a conversa sai da sua sala e entra na do CFO. Um diagnóstico que aponta R$ 1,4 milhão a provisionar contra R$ 250 mil reconhecidos não é informação jurídica: é um alerta contábil — e é esse tipo de entrega que reposiciona o jurídico de centro de custo para área que protege o resultado da companhia. Enquanto o relatório falar só a língua do processo e nunca a do balanço, o jurídico seguirá tratado como despesa, com toda a razão.
5. Por que o risco é o que é
A classificação responde “quanto”. O motivo responde “por quê”, e é no porquê que mora o dinheiro. Quando vários casos críticos compartilham a mesma causa — suspeita de fraude na assinatura do contrato, exposição a multa diária —, isso deixou de ser estatística de litígio e virou pauta de prevenção: o padrão na ponta judicial aponta o defeito na ponta operacional. Corrigir a origem vale mais do que vencer qualquer processo isolado, porque estanca a fonte. Relatório que entrega o número sem o motivo te condena a tratar sintoma para sempre.
O fio que liga as cinco
Repare no movimento que as cinco desenham juntas: da contagem à ponderação por risco, da comparação contra referência à tradução em provisão, até a causa-raiz que devolve uma ação preventiva ao negócio. Cada degrau transforma dado bruto em decisão possível. Legal ops não é ter a ferramenta de BI mais cara; é a disciplina de só colocar um número na frente de alguém quando ele vier acompanhado da decisão que habilita.
Há um efeito de segunda ordem: um jurídico que adota essa régua para de contratar por reputação e tabela de preço e passa a contratar por desfecho comparado, o que pressiona o mercado inteiro para cima. Para o departamento interno, a virada é de papel: deixa de ser o auditado pelo conselho e passa a ser quem audita a cadeia.
O teste, antes do próximo relatório
Pegue o próximo relatório que cruzar sua mesa e, diante de cada número, pergunte: isso me diz o que aconteceu, ou o que decidir? Se quase todas as páginas respondem à primeira e quase nenhuma à segunda, você já sabe o que tem em mãos.
A recomendação não é trocar de ferramenta nem montar um time de dados amanhã. É mais simples e mais incômoda: exija uma coluna a mais em todo relatório que você aceita receber. Ao lado do que aconteceu e de quanto custou, a decisão que aquele número sustenta. No dia em que o fornecedor, ou o seu próprio time, não conseguir preenchê-la, você terá encontrado o ponto exato onde a sua operação ainda decide no escuro. E aí a pergunta deixa de ser sobre o relatório. Passa a ser sobre quanto tempo você ainda vai aceitar decidir assim.
*Diego Avelino é sócio do G2 Advocacia
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