15 de maio de 2026 às 15:00
Atualizado em 15 de maio de 2026 às 13:06
Por: Redação
Por Célio Bernardi*
O Brasil errou no diagnóstico do próprio problema. Não falta empresa, falta conexão entre empresas. Em um país com mais de 25 milhões de negócios ativos, a insistência em tratar crescimento como uma questão exclusivamente macroeconômica ignora um fator central: a incapacidade de cooperação da base produtiva. O resultado é uma economia volumosa, mas pouco eficiente.
A consequência desse modelo é visível. O país amplia o número de empresas, mas mantém a produtividade estagnada há décadas, segundo o IBGE. Pequenos e médios negócios, que representam cerca de 94% das empresas ativas, seguem operando de forma isolada, com baixa capacidade de negociação, inovação e acesso a mercados . O Brasil cresce em quantidade, mas não consegue transformar esse volume em competitividade.
Essa fragmentação tem custo econômico direto. Empresas desarticuladas perdem escala, desperdiçam oportunidades e reduzem seu potencial de inovação. Não por acaso, estudos da Confederação Nacional da Indústria apontam que empresas inseridas em redes colaborativas têm maior probabilidade de inovar e exportar. A diferença não está apenas no porte ou no setor, mas na capacidade de atuação coletiva.
É nesse ponto que o associativismo deixa de ser uma agenda institucional e passa a ser uma estratégia econômica concreta. Ao organizar empresas, alinhar interesses e criar ambientes de cooperação, ele reduz ineficiências estruturais e amplia a competitividade. Mais do que representar, associações empresariais conectam, e essa conexão gera resultado.
Santa Catarina é um exemplo claro desse modelo em funcionamento. O estado registrou crescimento estimado de 3,9% do PIB em 2025, com avanço de 4,4% nas exportações e a menor taxa de desemprego do país, de 2,2%. Também alcançou mais de 1,6 milhão de empresas ativas, com destaque para pequenos negócios e microempreendedores . No setor de serviços, o crescimento foi de 3,2%, acima da média nacional de 2,8%, segundo o IBGE, o quinto ano consecutivo de expansão e o terceiro acima da média do país.
Os números não são isolados. Santa Catarina também registrou recorde histórico de US$ 12,2 bilhões em exportações em 2025, com forte presença do agronegócio e diversificação de mercados internacionais . Esse desempenho está diretamente ligado a um modelo econômico descentralizado, sustentado por uma rede consistente de entidades empresariais e pela cultura de cooperação.
Esse padrão se repete em outras regiões do país. Estados com maior organização produtiva e presença de entidades estruturadas, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, concentram cadeias mais competitivas e maior capacidade de inserção nacional e internacional. O ponto em comum é claro: onde há articulação, há mais desenvolvimento.
O associativismo atua onde políticas públicas nem sempre conseguem alcançar. Ele organiza demandas, constrói agendas comuns e reduz assimetrias de informação. Ao reunir empresas de diferentes portes, permite acesso coletivo a soluções que seriam inviáveis de forma individual, como qualificação, inteligência de mercado e interlocução institucional. Em um país marcado por desigualdades regionais, essa coordenação deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.
Ainda assim, o tema segue subestimado no debate econômico nacional. Discute-se competitividade olhando para Brasília, mas pouco se observa o que acontece nos territórios, onde empresas de fato operam. O crescimento sustentável não será resultado apenas de reformas estruturais, mas da capacidade de organização da base produtiva.
Tratar o associativismo como algo secundário é insistir em um modelo que já demonstrou suas limitações. Por outro lado, ampliá-lo exige evolução. Incorporar tecnologia, dados e novas formas de engajamento empresarial é fundamental para manter sua relevância em uma economia cada vez mais dinâmica debate que, inclusive, ganha espaço em iniciativas recentes em Santa Catarina, com encontros que reúnem lideranças empresariais para discutir o papel da articulação no desenvolvimento econômico, a exemplo do Conexa, previsto para os dias 18 e 19 de maio, em Florianópolis.
A pergunta que fica não é se o associativismo funciona. Os dados mostram que funciona. A questão é outra: por que ainda tratamos como secundário aquilo que, na prática, já se provou essencial?
*Célio Bernardi é advogado especialista em Direito e Processo do Trabalho e Direito Tributário e presidente da Associação Empresarial de Florianópolis (Acif).