R$ 827 mi em dívidas

‘Ri Happy’ entra com pedido de recuperação extrajudicial; especialistas apontam desafios

Recuperação extrajudicial pode preservar operações e renegociar pagamentos, mas sucesso depende da adesão dos credores e de ajustes na gestão financeira e comercial

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Foto: Divulgação

O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Ri Happy, rede de varejo de brinquedos, para renegociar R$ 827 milhões em dívidas amplia a discussão sobre os desafios financeiros enfrentados pelo varejo brasileiro.

O mecanismo permite que empresas negociem diretamente com grupos de credores, buscando reorganizar seus compromissos financeiros sem recorrer, inicialmente, a um processo de recuperação judicial. Especialistas alertam, porém, que o sucesso da medida dependerá tanto da adesão dos credores quanto da capacidade da rede de melhorar seus resultados operacionais.

Segundo Armin Lohbauer, especialista em Contencioso Cível do escritório Barcellos Tucunduva, a principal diferença entre a recuperação judicial e a extrajudicial está na abrangência da negociação e no grau de intervenção da Justiça. Enquanto a primeira envolve um processo mais amplo, com participação de diferentes classes de credores, a segunda permite negociar diretamente com grupos específicos e submeter o acordo à homologação judicial.

“A recuperação extrajudicial é um caminho geralmente mais rápido, menos burocrático e que permite uma solução mais direcionada para o endividamento”, explica. No caso da Ri Happy, a estratégia pode contribuir para preservar a relação com fornecedores e manter as lojas em funcionamento, especialmente às vésperas do Natal, período importante para o comércio de brinquedos.

O advogado ressalta que a recuperação não significa falência. “O objetivo é justamente evitar que uma dificuldade financeira comprometa a continuidade de uma empresa, seus empregos e toda a cadeia de negócios que depende dela.”

Adesão dos credores e riscos da negociação

Um dos principais desafios da Ri Happy será obter a adesão necessária à homologação do plano. Conforme a Lei nº 11.101/2005, a recuperação extrajudicial pode vincular credores dissidentes das espécies abrangidas, desde que haja adesão de titulares de mais da metade dos créditos correspondentes e sejam cumpridos os demais requisitos legais. A legislação também permite iniciar o procedimento com apoio de pelo menos um terço dos créditos abrangidos, concedendo prazo de 90 dias para alcançar o percentual exigido.

Lohbauer explica que os efeitos jurídicos dependem das dívidas incluídas na negociação. Credores não abrangidos pelo plano preservam, em regra, seus direitos de cobrança, enquanto aqueles incluídos poderão ter prazos e condições de pagamento modificados após a homologação judicial, mesmo sem concordância individual. “Se não conseguir a adesão suficiente, a Ri Happy não poderá impor o plano aos credores dissidentes. Nesse cenário, poderá buscar novas negociações ou até avaliar uma recuperação judicial. Isso não significa falência automática, mas aumenta a pressão por uma solução”, afirma.

Para o especialista, a preservação da confiança dos fornecedores é fundamental para a continuidade das operações. “A recuperação de uma empresa não depende apenas de renegociar dívidas, mas também de preservar a confiança de quem fornece os produtos e mantém o negócio funcionando”, destaca.

Na avaliação de Fernando Canutto, especialista em Direito Empresarial, sócio do Godke Advogados, a renegociação pode proporcionar fôlego financeiro à empresa, mas não resolve, isoladamente, as dificuldades que levaram ao endividamento. “A recuperação extrajudicial precisa fazer parte de um plano mais amplo de reestruturação empresarial. Se a empresa conseguir compatibilizar seu endividamento com sua efetiva capacidade de geração de caixa, preservando fornecedores e sua estrutura comercial, o procedimento poderá representar uma solução consistente”, afirma.

Juros elevados e transformação do varejo

Canutto destaca que a situação da Ri Happy também deve ser analisada diante das transformações do varejo, embora não seja possível atribuir a crise exclusivamente a fatores econômicos externos. Juros elevados, aumento dos custos de financiamento, concorrência do comércio eletrônico e mudanças no comportamento dos consumidores pressionam empresas com grandes estoques e estruturas físicas de operação.

No setor de brinquedos, há ainda a disputa pelo orçamento das famílias com jogos eletrônicos, produtos digitais e outras formas de entretenimento. Para o especialista, redes tradicionais precisam adaptar seus modelos de negócios, controlar despesas, melhorar margens e administrar estoques para preservar a competitividade. “A questão decisiva será verificar se a empresa conseguirá converter essa reorganização em resultados operacionais consistentes”, avalia Canutto.

O advogado também observa que o pedido ocorre pouco tempo depois de uma mudança no controle societário da Ri Happy, indicando uma tentativa de reorganização financeira e administrativa. Sem ajustes estruturais, entretanto, a renegociação pode apenas adiar dificuldades e tornar necessária uma recuperação judicial no futuro.

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