21 de julho de 2026 às 11:00
Atualizado em 21 de julho de 2026 às 10:34
Por Juarez Antonio da Silva* — O enfrentamento ao feminicídio precisa começar antes que o crime aconteça. Embora o assassinato de mulheres por razões de gênero represente a manifestação mais extrema da violência, ele raramente ocorre de forma repentina. Na maioria dos casos, há uma sequência de ameaças, agressões, perseguições, violência psicológica e outras condutas que evidenciam um processo gradual de escalada da violência. Reconhecer esses sinais com antecedência é uma das medidas mais eficazes para preservar vidas.
Essa visão ganha força com uma iniciativa desenvolvida no Rio Grande do Sul, que busca identificar precocemente fatores de risco capazes de indicar a possibilidade de evolução de casos de violência doméstica para feminicídio. A proposta representa uma mudança importante na forma de enfrentar esse problema, ao priorizar a prevenção em vez da atuação exclusivamente após a ocorrência do crime.
Durante muitos anos, o enfrentamento à violência contra a mulher esteve concentrado na investigação e responsabilização dos autores após a consumação dos delitos. Embora essa atuação seja indispensável para garantir a aplicação da lei, ela não é suficiente para impedir que novas vítimas sejam assassinadas. A proteção efetiva depende da capacidade de identificar situações de risco antes que elas alcancem um ponto sem retorno.
Os registros de violência doméstica demonstram que grande parte das vítimas de feminicídio já havia sofrido episódios anteriores de agressões, ameaças ou perseguições. Em muitos casos, também existiam medidas protetivas concedidas, denúncias formalizadas ou sinais claros de agravamento da violência. Esses antecedentes revelam que o feminicídio, na maioria das situações, não surge de maneira inesperada, mas como consequência de um ciclo de violência que se intensifica ao longo do tempo.
É justamente nesse contexto que a identificação precoce dos fatores de risco assume papel estratégico. Quanto mais cedo forem reconhecidos comportamentos que indiquem ameaça concreta à integridade da mulher, maiores serão as possibilidades de atuação das autoridades e da rede de proteção para interromper essa escalada.
A iniciativa desenvolvida no Rio Grande do Sul reforça esse entendimento ao estruturar mecanismos que permitem avaliar o grau de risco apresentado em cada ocorrência. Com isso, órgãos de segurança pública, Poder Judiciário, Ministério Público, assistência social e demais instituições envolvidas podem atuar de forma integrada, adotando medidas proporcionais à gravidade de cada situação.
Esse modelo também contribui para aperfeiçoar a formulação de políticas públicas. A utilização de critérios técnicos para identificar situações de maior vulnerabilidade permite direcionar recursos, estabelecer prioridades e desenvolver estratégias mais eficientes de prevenção. Trata-se de uma atuação baseada em inteligência, planejamento e integração institucional, elementos essenciais para reduzir os índices de violência contra a mulher.
Outro aspecto relevante está na conscientização da sociedade. Familiares, amigos, vizinhos e profissionais que integram a rede de atendimento também desempenham papel importante na identificação dos primeiros sinais da violência. Ameaças recorrentes, comportamento possessivo, controle excessivo, isolamento da vítima, perseguições e agressões anteriores não podem ser tratados como conflitos comuns do relacionamento, mas como indicadores que exigem atenção e resposta rápida.
Fortalecer a cultura da prevenção significa compreender que cada feminicídio representa uma sucessão de oportunidades perdidas de intervenção. Quando os sinais são ignorados ou subestimados, aumentam as chances de que a violência evolua para consequências irreversíveis. Por outro lado, quando esses fatores são identificados com antecedência, cresce significativamente a possibilidade de proteger a vítima e impedir que o crime aconteça.
O combate ao feminicídio exige uma atuação cada vez mais preventiva, integrada e baseada na análise dos fatores de risco. Investir na identificação precoce dos sinais de violência não significa apenas aperfeiçoar o trabalho das instituições públicas, mas reafirmar o compromisso da sociedade com a proteção da vida. Salvar mulheres começa muito antes da investigação de um homicídio; começa na capacidade de reconhecer os primeiros indícios da violência e agir antes que seja tarde.
*Juarez Antonio da Silva é advogado criminalista, empresário jurídico, palestrante e escritor, com mais de 30 anos de atuação profissional. Possui destacada atuação no Tribunal do Júri, na investigação defensiva e na defesa estratégica de pessoas, patrimônios e negócios.