Opinião

Corinthians precisa mudar; SAFiel é a mudança para quem? 

Clube precisa recuperar credibilidade, controlar despesas, renegociar compromissos, ampliar receitas e criar mecanismos que impeçam uma nova deterioração financeira

José Manoel Ferreira Gonçalves
Foto: Divulgação

Por José Manoel Ferreira Gonçalves*— O Corinthians precisa mudar. A dimensão de sua crise financeira, a perda de credibilidade acumulada ao longo de sucessivas administrações e a necessidade de profissionalizar a gestão tornam difícil defender a manutenção das coisas como estão. O problema começa quando a urgência transforma uma solução possível em solução inevitável.

É nesse contexto que deve ser analisada a SAFiel. A discussão não pode ser reduzida a uma disputa entre modernos e conservadores, entre aqueles que desejam salvar o clube e aqueles que supostamente resistem às mudanças. A questão é mais objetiva e, ao mesmo tempo, mais importante: qual estrutura está sendo proposta, como ela será financiada, quem será remunerado por essa operação e quais serão suas consequências para o Corinthians?

Há três perguntas que deveriam orientar qualquer decisão dessa natureza: quem coloca o dinheiro, quem assume o risco e quem terá o poder? Em uma operação equilibrada, essas respostas precisam guardar alguma proporcionalidade. Quem arrisca capital deve ter direitos compatíveis com esse risco. Quem exerce poder precisa responder pelas consequências de suas decisões. Poder dissociado de risco é uma combinação perigosa em qualquer empresa. Em um clube centenário, pode ser irreversível.

O Corinthians não é uma companhia que pertence a um acionista disposto a vender seu patrimônio. É uma instituição construída por gerações de torcedores, associados, atletas e funcionários. Isso não significa que deva permanecer preso a estruturas ultrapassadas. Significa exatamente o contrário: qualquer transformação precisa ser suficientemente sólida para sobreviver ao entusiasmo do momento e às dificuldades que virão depois.

É aqui que alguns elementos concretos da SAFiel merecem atenção especial. Entre eles está a remuneração prevista pela estruturação e captação dos recursos. A proposta estabelece uma taxa de sucesso vinculada ao dinheiro captado. Considerando a captação anunciada de R$ 2,5 bilhões, uma taxa de 2% representaria R$ 50 milhões. Não se trata de afirmar que uma operação dessa dimensão possa ser estruturada sem custos. A questão é outra: quem será remunerado, por qual serviço, em que momento, sob quais condições e com que grau de transparência sobre a destinação e administração desses valores?

Esse ponto ajuda a revelar por que a discussão não pode ficar restrita ao montante que se promete levantar. Quando se fala em bilhões de reais destinados à recuperação do Corinthians, é fundamental distinguir o capital que efetivamente ingressará no clube dos valores destinados a taxas, remunerações e custos da própria operação. Também é necessário saber quem administra esses recursos, quais mecanismos de fiscalização existirão e quem será beneficiado financeiramente pelo sucesso da captação. Em uma estrutura apresentada como uma “sociedade do povo”, essas respostas não podem permanecer ambíguas.

A dívida existe. A necessidade de profissionalização também. O clube precisa recuperar credibilidade, controlar despesas, renegociar compromissos, ampliar receitas e criar mecanismos que impeçam uma nova deterioração financeira. Mas um diagnóstico correto não torna automaticamente correto o tratamento escolhido.

Por isso, uma proposta capaz de alterar a natureza do Corinthians precisa suportar perguntas desconfortáveis. Quem são os investidores? Quanto de capital próprio será efetivamente comprometido? Quem absorverá eventuais perdas? Como será distribuído o poder? Que participação permanecerá com o clube? Qual será a influência efetiva da torcida? E o que acontecerá se as projeções de captação e receita não se confirmarem?

Fazer essas perguntas não significa ser contra mudanças. Significa tentar impedir que uma crise de gestão seja resolvida com a criação de um problema ainda maior.

Também não acredito na narrativa de que existam apenas duas alternativas: SAFiel ou abismo. O modelo associativo pode e deve ser profundamente reformado. Isso passa por profissionalização da gestão, transparência das contas, responsabilidade orçamentária, teto de gastos, renegociação das dívidas, recuperação de receitas e ampliação dos mecanismos de fiscalização e participação.

O próprio Corinthians oferece uma referência histórica para essa discussão. A Democracia Corintiana não deve ser romantizada nem reproduzida literalmente quatro décadas depois. Uma organização que movimenta centenas de milhões de reais e administra um passivo bilionário exige executivos profissionais, conhecimento técnico e decisões cotidianas que não podem depender de assembleias permanentes.

Mas existe naquela experiência um princípio que continua atual: quem sustenta uma instituição precisa ter voz sobre quem a governa. Democracia não significa ausência de liderança. Significa legitimidade para liderar e responsabilidade para prestar contas.

Se, depois de um debate amplo, transparente e tecnicamente fundamentado, a conclusão for de que o modelo associativo não consegue mais oferecer condições para recuperar o Corinthians, então que se discuta uma SAF. Mas uma SAF com investidores identificados, capital próprio efetivamente comprometido, responsabilidades estabelecidas e governança clara. Quem coloca patrimônio real em risco pode legitimamente reivindicar participação no poder. O que não faz sentido é entregar poder sem a correspondente exposição ao risco.

Talvez o maior perigo de uma crise profunda seja acreditar que não há tempo para discutir. É justamente o contrário. Quanto mais definitiva for uma decisão, maior deve ser o cuidado antes de tomá-la. Pressa pode ser necessária para cortar despesas, renegociar uma dívida ou corrigir uma gestão. Não para redefinir a natureza de uma instituição construída ao longo de mais de um século.

A paixão pelo futebol nos permite acreditar até o último minuto. Fora das quatro linhas, porém, esperança não substitui governança, promessa não substitui capital e urgência não substitui transparência.

O Corinthians precisa mudar. Precisa voltar a ser financeiramente sustentável, competitivo e confiável. Mas, antes de escolher o modelo que definirá seu futuro, a Fiel tem o direito de conhecer todas as respostas.

Porque, diante da SAFiel, a pergunta decisiva não é apenas quanto dinheiro pode entrar no Corinthians. É quanto efetivamente chegará ao clube, quem será remunerado no caminho, quem assumirá o risco, quem ficará com o poder e a quem o Corinthians do futuro será fiel.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é advogado e jornalista; autor de “Fiel a quem? O quanto a SAFiel é infiel ao Corinthians” (Kotter Editorial).

1 comentário

  1. MORGANA S OLIVEIRA disse:

    Um artigo necessário e muito bem colocado. A discussão sobre o futuro do Corinthians precisa sair do campo das promessas e entrar no campo dos números, da governança e da responsabilidade. O ponto central não é ser contra ou a favor de uma SAF, mas saber quem coloca dinheiro, quem assume o risco, quem terá o poder e quais garantias permanecerão para o clube e para sua torcida. Uma mudança dessa dimensão exige transparência e respostas objetivas antes de qualquer decisão definitiva.

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