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Eleições 2026
Levantamento questionou eleitores sobre conversas entre banqueiro e senador; ministro afirmou que questionário indica, em tese, “possível comprometimento da neutralidade metodológica”
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, determinou a suspensão da divulgação de uma pesquisa eleitoral da AtlasIntel sobre a disputa presidencial de 2026 após identificar indícios de que o questionário poderia ter influenciado as respostas dos entrevistados.
A decisão de Nunes Marques, em caráter liminar, foi proferida nesta segunda-feira (9/6), em uma ação apresentada pelo PL, que acusou o instituto de utilizar perguntas capazes de associar negativamente o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato da legenda à Presidência, ao caso envolvendo o Banco Master.
Segundo o partido, o levantamento ultrapassou os limites de uma simples aferição de opinião pública ao incluir questões como: “Na sua percepção, qual grupo político está mais envolvido no esquema de fraudes financeiras do Banco Master?” e “Você ficou sabendo do áudio e mensagens vazadas de supostas conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master?”.
Em seguida, os entrevistados eram questionados se, após tomarem conhecimento das informações, estariam mais ou menos dispostos a votar no senador e se ele deveria manter ou retirar sua candidatura.
Para o PL, a utilização de expressões como “esquema de fraudes financeiras” e a apresentação prévia de informações negativas poderiam induzir os entrevistados a alterar suas respostas sobre intenção de voto, rejeição e imagem pública do pré-candidato.
Ao analisar o pedido, Nunes Marques afirmou que os elementos apresentados indicam, em tese, “possível comprometimento da neutralidade metodológica da pesquisa”. Segundo o ministro, a sequência de perguntas registrada no questionário aparenta ir além da simples coleta de opiniões para introduzir “estímulos narrativos” capazes de influenciar respostas posteriores relacionadas à avaliação de Flávio Bolsonaro.
Nunes Marques também mencionou uma entrevista concedida pelo CEO da AtlasIntel à CNN Brasil, Andrei Roman, na qual o executivo teria afirmado que o conteúdo relacionado a Flávio Bolsonaro era “muito problemático” para a imagem do senador e poderia comprometer sua viabilidade eleitoral. Na avaliação do magistrado, essas declarações reforçam a suspeita de que o questionário possa ter extrapolado os limites de uma pesquisa estatística neutra.
O levantamento da Atlas foi divulgado em 19 de maio e foi a primeira pesquisa a aferir os impactos da divulgação dos áudios na corrida presidencial — Flávio caiu seis pontos no cenário de segundo turno: 41,8% do senador, contra 48,9% do presidente Lula (PT).
Apesar da suspensão, o ministro ressaltou que a decisão tem caráter provisório e não representa um julgamento definitivo sobre a legalidade da pesquisa. Após a análise dos documentos e manifestação do Ministério Público Eleitoral (MPE), o caso ainda será submetido ao plenário do TSE.
A empresa sustenta que o questionário foi elaborado dentro de sua autonomia metodológica e que as perguntas apenas buscavam medir a percepção dos eleitores sobre fatos amplamente divulgados pela imprensa.
Para o advogado Pedro Henrique Mazzaro Lopes, sócio na Caires, Marques & Mazzaro Advogados, a suspensão tem amparo na regulamentação do TSE e não configura censura propriamente dita, já que a medida se baseia em suspeitas sobre a metodologia da pesquisa, e não em seus resultados. Ele pondera, contudo, que a retirada de circulação de um levantamento já divulgado é uma medida excepcional, que deveria ser adotada apenas em último caso.
“Havia alternativas menos drásticas, como manter a divulgação com ressalva expressa de que a pesquisa está sob impugnação. E existe um risco que não pode ser ignorado, que é o de que partidos descontentes com números ruins transformem a impugnação de pesquisas em estratégia eleitoral ordinária. Quanto mais tempo a suspensão durar sem julgamento definitivo, mais ela vai se parecer, na prática, com aquilo que formalmente não é”, avalia.
Mazzaro Lopes explica que pesquisas podem — e até devem — abordar escândalos envolvendo candidatos, mas a controvérsia está na forma como as perguntas foram estruturadas. Para ele, há diferença entre medir a percepção do eleitor sobre um fato e apresentar uma narrativa negativa antes de questioná-lo sobre intenção de voto. “O que mais pesou contra o instituto, a meu ver, não foi nem o questionário em si, mas o próprio CEO [da Atlas] ter ido à televisão opinar sobre a viabilidade eleitoral do candidato que sua empresa pesquisava”, diz.
A decisão do TSE envolvendo a Atlas servirá como régua para o pleito de outubro, afirma Mazzaro. “Se a Corte referendar a liminar com base apenas na leitura do questionário e em declarações públicas, o recado será de que o filtro é baixo, e a fila de impugnações vai crescer. No fundo, há dois riscos simétricos em disputa, que são a pesquisa manipulada que funciona como propaganda disfarçada e a impugnação oportunista que funciona como censura disfarçada. A Justiça Eleitoral precisa reprimir o primeiro sem se deixar capturar pelo segundo. Esse equilíbrio é o que está realmente em julgamento, e transcende o caso AtlasIntel”.
Leia a íntegra da decisão.
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