Transição energética

Minerais críticos e terras raras são a mesma coisa? Entenda a diferença e o que diz a nova lei

Apenas cerca de 25% do território brasileiro foi mapeado, o que indica a existência de um potencial mineral ainda desconhecido

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, na quarta-feira (16/9), a Lei nº 14.994/2026, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A medida busca estimular a pesquisa, a extração e a transformação desses recursos, além de ampliar a produção de itens com maior valor tecnológico dentro do país.

A nova política prevê até R$ 7 bilhões em incentivos, cria um fundo para garantir projetos do setor e institui um conselho responsável por definir prioridades e acompanhar os empreendimentos.

Mas o que são minerais críticos? E qual é a diferença entre eles e as chamadas terras raras? Entenda ponto a ponto.

O que a nova política estabelece?

A PNMCE tem como principal objetivo ampliar a agregação de valor aos recursos minerais em território nacional. Para isso, prevê estímulos à pesquisa, à lavra, ao beneficiamento, à transformação e à mineração urbana — processo que reaproveita minerais presentes em produtos e resíduos.

A política pretende fazer com que os minerais críticos e estratégicos contribuam para a industrialização, a inovação tecnológica, a segurança energética e tecnológica, a sustentabilidade e o desenvolvimento regional.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a proposta também busca preservar a soberania brasileira sobre o uso desses recursos para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social.

Quanto será destinado ao setor?

A política prevê até R$ 7 bilhões em incentivos a projetos de pesquisa, extração, processamento e transformação de minerais críticos e estratégicos.

Parte dos recursos virá de créditos fiscais concedidos pelo Programa Federal de Beneficiamento e Transformação de Minerais Críticos e Estratégicos (PFMCE). Outra parcela será destinada ao Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM).

Como funcionarão os créditos fiscais?

O PFMCE permitirá que empresas transformem em crédito fiscal até 20% dos gastos com beneficiamento, transformação e mineração urbana.

O programa terá limite de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Para obter o benefício, os projetos deverão ser previamente aprovados pelo Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.

A política também exigirá das empresas investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), cumprimento de contrapartidas socioambientais e utilização de produtos e mão de obra locais, além de outras condições.

O que muda na pesquisa e no mapeamento mineral?

A política cria a Rede Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Formação Profissional em Minerais Críticos e Estratégicos. A proposta é aproximar o setor mineral de universidades, startups, instituições científicas e centros de pesquisa.

O governo também pretende ampliar os recursos destinados ao Serviço Geológico do Brasil. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o orçamento para o conhecimento do solo passará de R$ 8 milhões para R$ 300 milhões.

Apenas cerca de 25% do território brasileiro foi mapeado, o que indica a existência de um potencial mineral ainda desconhecido.

Haverá controle sobre a origem dos minerais?

A lei prevê mecanismos de rastreabilidade para acompanhar as diferentes etapas da cadeia produtiva. O controle deverá abranger a origem dos minerais, as licenças ambientais, as outorgas, o transporte e a reciclagem, inclusive nas atividades de mineração urbana.

Governo pretende formar novos profissionais?

Durante a sanção, Lula defendeu a participação de universidades e institutos federais na criação de cursos destinados à formação de profissionais para um mercado que, segundo ele, deverá se expandir.

O presidente também ressaltou a importância de o Brasil desenvolver sua própria indústria, com tecnologia de refino e produção. Lula criticou a exportação de minerais em estado bruto a preços baixos e afirmou que a soberania brasileira “não está à venda”.

O que são minerais?

Minerais são substâncias naturais extraídas da terra e presentes em produtos do cotidiano, como celulares, automóveis e equipamentos usados na geração e distribuição de energia.

Depois de extraídos, passam por processos de beneficiamento e transformação até se tornarem matérias-primas utilizadas pela indústria.

O que são minerais críticos?

Minerais críticos são recursos essenciais para setores como energia limpa, eletrificação, tecnologia, indústria automobilística e defesa, mas cujo fornecimento está sujeito a riscos.

Entre esses riscos estão a concentração da produção em poucos países, a dependência externa, a instabilidade geopolítica, as limitações tecnológicas, possíveis interrupções no abastecimento e a dificuldade de substituir esses materiais.

E o que são minerais estratégicos?

Os minerais estratégicos são definidos de acordo com os interesses de cada país. São recursos considerados fundamentais para a economia, a segurança nacional e a soberania tecnológica.

A lista de minerais críticos ou estratégicos não é permanente. Ela pode mudar conforme os avanços tecnológicos, as descobertas geológicas, as transformações geopolíticas e a evolução da demanda.

Terras raras são a mesma coisa que minerais críticos?

Não exatamente. As terras raras formam um grupo específico de 17 elementos químicos que pode ser enquadrado entre os minerais críticos ou estratégicos, conforme o contexto e as necessidades de cada país.

Elas são usadas na produção de ímãs de alta potência, ligas metálicas especiais e componentes tecnológicos. Também são importantes para turbinas eólicas, smartphones, carros elétricos e sistemas de defesa.

Apesar do nome, esses elementos são relativamente abundantes. O problema é que aparecem dispersos na natureza, o que torna sua extração complexa e cara. As diferenças entre minerais críticos, estratégicos e terras raras são explicadas pelo Portal da Indústria.

Qual é a posição do Brasil nas reservas de terras raras?

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior reserva já mapeada no mundo. O volume equivale a aproximadamente 19% das reservas conhecidas.

O país fica atrás apenas da China, que concentra cerca de 40% das reservas, ou aproximadamente 44 milhões de toneladas. Os chineses também respondem por mais de 70% da produção mundial.

Apesar do tamanho das reservas brasileiras, o país produz menos de 0,1% do total global.

Qual é a relação com a transição energética?

Minerais críticos e terras raras são insumos usados pelas indústrias de tecnologia, defesa e automóveis e têm papel central na expansão da energia limpa e da eletrificação.

A nova política busca fazer com que o Brasil não se limite à extração e à exportação desses recursos, mas também avance nas etapas de beneficiamento e transformação, responsáveis por produzir materiais de maior valor econômico e tecnológico.

Por que o setor cobra previsibilidade?

A mineração exige investimentos elevados e possui ciclos produtivos que podem chegar a 40 anos. Por isso, o Instituto Brasileiro de Mineração considera a previsibilidade e a estabilidade, especialmente na área fiscal, condições indispensáveis para atrair investimentos de longo prazo.

Terras raras podem entrar em negociações comerciais?

Nos últimos meses, os Estados Unidos adotaram tarifas elevadas sobre produtos brasileiros. Em resposta, o governo federal sugeriu incluir os minerais críticos e as terras raras nas negociações.

Os Estados Unidos são altamente dependentes da importação desses recursos, principalmente da China, enquanto o Brasil possui grandes reservas e potencial para ampliar sua produção.

Com informações da Agência Brasil e do Portal da Indústria

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