Fuga de Flávio Bolsonaro: saiba por quais crimes senador responde e se o ‘zero um’ pode ser preso
Parlamentar está nos Estados Unidos com a mulher e as duas filhas de 14 e 12 anos; advogado ouvido pelo DeJur vê decretação de prisão preventiva como iminente
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29 de outubro de 2026 às 14:23Atualizado em 29 de outubro de 2026 às 15:00
Por: Paulo Holland
Flávio Bolsonaro foge para os EUA | Créditos: Emerson Fernandes, Montagem IA
A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, logo depois da derrota para Lula (PT) no segundo turno, transformou o debate político-eleitoral em caso de polícia.
Foto: Divulgação
Flávio partiu nesta semana com a mulher, Fernanda Antunes Bolsonaro, e as duas filhas do casal, de 14 e 12 anos, para os Estados Unidos sem entregar os seus passaportes à Polícia Federal, descumprindo a ordem cautelar imposta pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A viagem foi feita por via terrestre em direção à Argentina, de onde seguiu em um jatinho privado para a Flórida, em Miami.
Foto: Divulgação
Quais crimes Flávio Bolsonaro responde?
Flávio Bolsonaro é investigado em inquéritos no STF por crimes que incluem lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, além de investigações sobre organização criminosa (entenda abaixo cada uma das investigações).
A rota e o motivo da fuga
A decisão de fugir do Brasil ocorreu horas depois da determinação da entrega dos passaportes e da proibição de deixar o país. A medida do STF amparou-se em alertas da Polícia Federal, que indicavam riscos de evasão fundamentados em declarações públicas do deputado cassado Eduardo Bolsonaro recomendando a saída do irmão, além da capacidade financeira e de contatos no exterior do parlamentar.
Trajeto terrestre: a família cruzou a fronteira terrestre pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, já na Argentina, às 22h50 da terça-feira (27/10).
Decolagem: Em solo argentino, embarcou em um jatinho executivo.
Escala: A aeronave evitou o espaço aéreo brasileiro e sobrevoou Paraguai, Bolívia e Peru, realizando escala técnica em Guayaquil, no Equador, antes de desembarcar em solo norte-americano, na Flórida.
Das ‘rachadinhas’ ao caso Master
Os inquéritos criminais sobre ele ainda estão no STF, devido ao foro privilegiado exercido até o fim do mandato no Senado, mas não deve voltar para a primeira instância com o fim do mandato, porém, porque o STF já decidiu que se o crime tiver sido praticado durante o mandato e tiver relação com a função pública, o processo ou inquérito permanece na Corte, mesmo que o parlamentar não seja reeleito ou deixe o cargo por outro motivo.
Entre as principais frentes de apuração e antecedentes citados nas apurações da Justiça constam:
Inquérito do Banco Master: Apura o financiamento e aporte de recursos de Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, no filme Dark Horse, uma biografia de Jair Bolsonaro.
Inquérito com o advogado Willer Tomaz: Investigação por suspeita de lavagem de dinheiro e repasses envolvendo casas de apostas (bets) e contas corporativas vinculadas ao advogado.
Rachadinhas: Conexões apontadas em relatórios anteriores do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre o uso de operadores financeiros na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Foto: Reprodução/IA
Flávio Bolsonaro pode ser preso?
Sim. Para o advogado criminalista Marcelo Aith, “o natural será a decretação da prisão e a inclusão de Flávio nos canais da Interpol”. Ao DeJur, o advogado explica que a determinação de entrega do passaporte foi uma medida cautelar alternativa à prisão. Ou seja, o descumprimento injustificado dessa ordem “pode ensejar a decretação da prisão preventiva”.
O criminalista apontou que “não há como cravar que a medida de Moraes tenha sido precipitada porque não temos, ainda, de forma ampla e aberta, os indícios que levaram o ministro a acreditar que o senador iria fugir do país”, sustentando contudo que, com base no que se sabia, a imposição da medida “ensejaria discussões de adequação” e acabaria por tornar o derrotado nas urnas “um perseguido político, o que [ele] não é”.
O advogado afastou veementemente a tese de perseguição contra o parlamentar. “Não existe perseguição alguma”, cravou Aith, lembrando que o ex-senador responde a procedimentos rumorosos sobre o “dinheiro do Master no filme do pai e a farra do dinheiro com o advogado Willer”. Para o jurista, o histórico de “rachadinhas” e os indícios de conexão com milícias no Rio mostram que Flávio “nem de longe é um coitado perseguido”, concluindo que é preciso “tirar as vendas dos olhos, encarar as coisas como elas são e dar-lhes os nomes certos”.
‘Estados Unidos do Brazil, com Z’
Já em solo norte-americano, Flávio Bolsonaro publicou uma “Carta à Nação Brasileira”. Na primeira versão divulgada nas redes sociais, o parlamentar se proclamou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Após reações no meio político, editou a publicação para referir-se a si mesmo como “líder do Brasil”.
O documento usou um cabeçalho com o brasão da República com a grafia em inglês “Brazil” (com Z) e a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação republicana histórica adotada entre 1889 e 1967. A imagem foi substituída posteriormente em nova versão digital.
No texto, o senador afirmou que buscou “segurança jurídica” e fez agradecimentos explícitos ao apoio de lideranças internacionais, citando Donald Trump e Javier Milei.
Isolamento
A viagem não comunicada causou surpresa nas lideranças do Partido Liberal (PL) e dispersou a base aliada no Congresso.
Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, publicou nota em que o partido reconhece a vitória de Lula nas urnas. Já o senador Rogério Marinho (PL-RN), ex-coordenador da campanha, minimizou a contestação do pleito, classificando-a como um “desabafo emocional”. Visivelmente atônito, o parlamentar negou que soubesse o paradeiro de Flávio Bolsonaro.
O governador de São Paulo e pupilo de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi outro que empurrou Flávio Bolsonaro para o isolamento. Tarcísio afirmou compreender o momento do aliado, mas ressaltou que a prioridade do país é a manutenção da estabilidade e o respeito ao resultado soberano das urnas.
Na noite desta quarta, logo após a divulgação da carta golpista de Flávio, o ministro Kássio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declarou que “as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”.