Opinião

As facções mudam o cenário eleitoral

Para 73% a violência aumentou por maior ocorrência de crimes e maior violência deles. A mesma pesquisa indica que 80% desejam ações mais duras contra facções

Por Antonio Gonçalves* – As facções criminosas são uma realidade no Brasil. O Governo Nacional sabe disso, a população brasileira também. A pesquisa Quaest/Pax mostra que o principal problema do Brasil é a violência (28%), mais do que a corrupção (22%) e a economia (19%). Para 73% a violência aumentou por maior ocorrência de crimes e maior violência deles. A mesma pesquisa indica que 80% desejam ações mais duras contra facções.

As facções mudam o cenário eleitoral
Antonio Gonçalves | Crédito: Divulgação

Os candidatos aos governos estaduais e, principalmente, para a presidência da República têm como plataforma o incremento da Segurança Pública e o enfrentamento das facções, porém, pouco se fala da influência crescente das organizações criminosas nas eleições brasileiras.

As eleições de 2026 estão por acontecer e, com elas, a atuação das facções se faz notar e o Estado não consegue mitigar sua atuação, a ponto de ter de se adequar à realidade das organizações criminosas.

No Rio de Janeiro, local central das operações do Comando Vermelho, a violência cresce a ponto de o Estado ter de modificar 71 zonas eleitorais, em 20 municípios, por domínio de facções (dessas, 44 estavam em áreas dominadas pelo Comando Vermelho). Há um aumento, tanto da preocupação, quanto da influência, afinal, nas eleições de 2024, 53 zonas eleitorais já haviam sido substituídas em dez cidades.

Recente reportagem publicada na Revista Piauí, em agosto de 2026, revela que, nas últimas cinco eleições realizadas no Brasil, 80 candidatos a deputado, prefeito e vereador estavam sendo formalmente investigados sob suspeita de ligações diretas com facções e milícias. Destes, 49 foram eleitos.

A influência das facções criminosas revela uma preocupação crescente não apenas com a Segurança Pública, mas sim, com o funcionamento da propria Democracia. De que forma? 1) Nas disputas eleitorais, através de candidatos vinculados ou associados a facções; 2) A governança informal e clandestina das facções com transferência de sua influência em determinados territórios e, por conseguinte, a capacidade de influir na disputa eleitoral; e 3) Uso de erário advindo do crime para financiar e/ou apoiar projetos políticos.

A influência das facções pode ser direta ou indireta. Claro que não há um candidato membro de uma organização, porém, advindo com financiamento indireto, com ligações diretas já é outra história. A mudança dos locais de votação faz com que a população possa votar em paz e pela própria consciência, será?

Um morador de uma comunidade controlada por uma facção pode até votar em outro local, contudo, a pressão para votar “livremente” no candidato controlado ou financiado pela organização criminosa é a mesma. Muito eleitores tentam fotografar o voto para comprovar a fidelidade.

As facções são uma realidade nas eleições e o Estado não consegue fazer tal fato recrudescer. É um retrato fiel da realidade e da presença das organizações criminosas no País. A preocupação transcende às fronteiras nacionais, a ponto da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN apontar um nível crítico de potencial influência e interferência externa dos Estados Unidos da América nas eleições brasileiras de 2026, em relatório enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça.

É um absurdo pensar em uma fiscalização ou ingerência externas nas eleições brasileiras. Contudo, já passou da hora do Governo Federal implementar mudanças a fim de minorar a influência das facções criminosas nas eleições brasileiras. Quanto mais permissiva tem sido a falta de ingerência e controle no processo eleitoral, sem a construção de elementos mais seguros de proteção e identificação de candidatos advindos das organizações criminosas e com recursos oriundos do mundo do crime, mais nos aproximamos de um risco concreto à democracia. As facções são um fato concreto no Brasil e as autoridades, os Estados, Municípios e, especialmente, o Governo Federal e o Tribunal Superior Eleitoral precisam modificar seus mecanismos eleitorais para limitar e coibir a presença das facções no Estado Democrático de Direito brasileiro. Urgentemente. 

*Antonio Gonçalves é advogado criminalista. Pós-doutor, doutor e mestre pela PUC/SP, Pós doutorando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

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