Opinião

SUS, Santas Casas e o julgamento que pode reequilibrar o sistema

Decisão do STJ pode produzir efeitos em cadeia, influenciando novos contratos e até abrindo espaço para revisões de acordos já existentes

Rodrigo Perego
Foto: Divulgação

Por Rodrigo Perego*
As Santas Casas e os hospitais filantrópicos de todo o país acompanham com atenção o julgamento em curso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que pode alterar de forma significativa a maneira como essas instituições são remuneradas pelos serviços prestados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O debate envolve a metodologia de cálculo dos valores pagos pelo poder público nos convênios firmados com essas entidades, responsáveis por mais da metade da assistência do SUS. A possível revisão desses critérios ocorre em um cenário já marcado por subfinanciamento estrutural, que, segundo dados do setor, gera um déficit anual entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões.

Esse desequilíbrio está diretamente relacionado à defasagem da chamada Tabela SUS, que cobre, em média, apenas cerca de 60% do custo real dos procedimentos realizados. Para muitas instituições, essa diferença tem sido determinante para o aumento das dificuldades financeiras e para a pressão sobre a continuidade dos serviços.

Do outro lado, a União demonstra preocupação com o impacto fiscal de uma eventual mudança. A estimativa é de que a revisão dos critérios possa gerar um custo adicional de aproximadamente R$ 24 bilhões por ano ao orçamento federal, o que também levanta debates sobre a sustentabilidade das contas públicas e possíveis efeitos em cadeia no Judiciário.

A avaliação inicial é que o julgamento tem potencial para se tornar um marco na relação entre o poder público e as instituições filantrópicas, ao tratar diretamente da forma como os serviços de saúde são remunerados. Uma eventual mudança pode corrigir distorções históricas e trazer mais equilíbrio para os contratos firmados.

Além do impacto financeiro, há também reflexos jurídicos relevantes. A depender do entendimento consolidado, a decisão pode produzir efeitos em cadeia, influenciando novos contratos e até abrindo espaço para revisões de acordos já existentes, o que exige atenção redobrada das instituições.

Diante desse cenário, o momento é considerado estratégico para acompanhamento técnico e jurídico qualificado, permitindo que Santas Casas e hospitais filantrópicos identifiquem oportunidades e mitiguem riscos diante de uma possível mudança na jurisprudência.

Com o julgamento ainda em andamento, o setor segue mobilizado e atento aos desdobramentos. O que se espera é que a decisão contribua para um ambiente de maior segurança jurídica e previsibilidade, condições indispensáveis para sustentar instituições que não apenas integram o sistema de saúde, mas garantem, na prática, o atendimento de milhões de brasileiros.