Prisão rural

Fazendeiro é preso no Paraná após ameaçar peritos de seguradora com arma

O agricultor Leonardo Felipe Facioni Mackiewicz foi preso no último dia 4 no Paraná após ser denunciado por ameaçar com uma arma de fogo dois profissionais encarregados de avaliar perdas em uma lavoura de milho. Os documentos policiais que embasaram a decretação de sua prisão preventiva apontam que Mackiewicz teria tentado obrigá-los a incluir no laudo informações sem respaldo técnico para garantir o pagamento de um seguro por quebra de safra.

Os fatos ocorreram em 28 de julho, na propriedade rural de Mackiewicz, localizada na Linha Santa Ana, em Capanema, no sudoeste do Paraná, perto da fronteira com a Argentina. A vistoria estava relacionada à alegação de perda de produtividade em uma lavoura de milho safrinha em decorrência da seca. A plantação estava coberta por seguros.

O perito agrícola responsável pela inspeção e o engenheiro agrônomo encarregado de auditar as supostas perdas constataram, ao chegarem ao local, que quase toda a lavoura já havia sido colhida.

Segundo o relatório final da Polícia Civil, 99% da área segurada já estava colhida e restava apenas um hectare para avaliação. Mackiewicz declarou à polícia que teria perdido aproximadamente 70% da lavoura em razão da seca.

Os profissionais explicaram ao agricultor que a parcela remanescente não era suficientemente representativa para permitir uma amostragem válida para toda a produção e eventuais perdas. Por essa razão, não seria possível aferir com segurança a produtividade das áreas já colhidas para fins de pagamento do seguro.

De acordo com os relatos apresentados à Polícia Civil, Mackiewicz teria insistido para que o laudo registrasse produtividade de 50 sacas por alqueire, embora o dado não pudesse ser tecnicamente confirmado. Um dos peritos afirmou ainda que o agricultor teria dito já ter conseguido fraudar avaliações semelhantes em anos anteriores com outros profissionais.

Diante da recusa, Mackiewicz foi até sua caminhonete, uma Ford Ranger prata, pegou um revólver e apontou a arma contra os dois profissionais. Segundo uma das vítimas, ele afirmou que eles não sairiam vivos da propriedade caso não resolvessem a situação da forma exigida.

Durante o episódio, o agricultor teria se apresentado às vítimas como CAC, colecionador, atirador desportivo e caçador.

Na tentativa de impedir a saída da equipe, Mackiewicz teria posicionado a caminhonete de forma a bloquear a estrada de acesso à propriedade. Um dos profissionais conseguiu fugir dirigindo por lavouras vizinhas, mas passou a ser perseguido pelo agricultor, que conduzia seu veículo com a arma para fora da janela.

Durante a perseguição, a vítima ouviu um disparo. Segundo a decisão judicial, porém, o profissional não conseguiu precisar se o tiro foi direcionado contra o automóvel ou efetuado com a finalidade de intimidá-lo.

O outro profissional não conseguiu deixar imediatamente a propriedade. Temendo por sua integridade física, teria sido obrigado a preencher o laudo com a baixa produtividade exigida pelo agricultor, apesar da inexistência de condições técnicas para validar a informação. Segundo seu relato, essa foi a única maneira encontrada para sair do local em segurança.

Polícia conclui inquérito e indicia agricultor

A Polícia Civil concluiu o inquérito e indiciou formalmente Mackiewicz pelos crimes de disparo de arma de fogo, constrangimento ilegal qualificado pelo emprego de arma e ameaça.

No relatório final, a polícia afirma haver indícios suficientes de autoria e materialidade e sustenta que o agricultor utilizou grave ameaça para tentar obrigar os profissionais a inserir informações falsas no laudo do seguro.

A investigação também destaca que os relatos apresentados pelos dois profissionais foram colhidos separadamente e são convergentes sobre a dinâmica dos fatos. A arma que teria sido utilizada durante o episódio não foi localizada nas buscas realizadas pela polícia.

Ameaças posteriores

As intimidações, no entanto, não teriam terminado na propriedade. Posteriormente, Mackiewicz teria enviado a um dos profissionais, por WhatsApp, uma fotografia da placa do automóvel utilizado pela equipe durante a vistoria e questionado o que havia sido relatado pelo responsável pela auditoria.

Depois de ser comunicado de que a seguradora havia negado o pagamento da indenização, o agricultor teria retomado o contato. Em 27 de agosto, já durante a investigação, respondeu à mensagem que continha a fotografia da placa do veículo com a frase “não se esqueça disso”.

Na sequência, teria enviado uma mensagem temporária afirmando possuir “irmãos pelo Brasil inteiro” e exigindo que a vítima informasse a localização exata e o endereço residencial de seu supervisor. Caso não recebesse a informação, ameaçou localizar o profissional em Cascavel.

A persistência das intimidações foi determinante para a decretação da prisão preventiva. Em decisão de 2 de setembro, a juíza Alexandra Aparecida de Souza Dalla Barba, do Juízo das Garantias da Vara Criminal de Capanema, considerou que a liberdade do investigado representava risco concreto à ordem pública e à instrução criminal. O Ministério Público manifestou-se favoravelmente à medida.

A magistrada destacou que as ameaças não ficaram restritas ao episódio ocorrido na propriedade. Ao contrário, teriam continuado e se agravado mesmo depois do início da investigação, com uma possível tentativa de intimidar uma das vítimas e obter informações sobre a localização da outra.

A Justiça também considerou insuficientes medidas cautelares mais brandas, como proibição de contato, recolhimento domiciliar e monitoração eletrônica. Conforme a decisão, essas providências não impediriam comunicações telefônicas ou eletrônicas nem uma possível atuação por intermédio de terceiros.

Além da prisão preventiva, a Justiça autorizou busca e apreensão na propriedade rural. A medida teve como objetivo localizar a arma possivelmente utilizada nos fatos, além de munições e acessórios. A arma não foi encontrada.

Capivara de fazendeiro reúne violência doméstica, crimes ambientais e embriaguez ao volante

Mackiewicz já havia sido investigado ou citado em ocorrências envolvendo embriaguez ao volante, direção perigosa, ameaças, vias de fato, lesão corporal, violência doméstica e crimes ambientais. Levantamento da Polícia Civil do Paraná reúne registros policiais contra o agricultor desde 2015.

Naquele ano, ele foi preso em flagrante pela suposta prática de embriaguez ao volante. Em 2016, segundo boletim de ocorrência, teria fugido em alta velocidade depois de receber ordem de parada, atravessando vias preferenciais e realizando manobras perigosas. Durante a perseguição, policiais efetuaram quatro disparos com munição de impacto controlado até conseguirem abordar o veículo.

Em 2017, uma mulher procurou a polícia e relatou que vinha recebendo mensagens insistentes e ameaças do agricultor. Segundo o boletim de ocorrência, Mackiewicz teria exigido que ela se encontrasse com ele e, diante da recusa, afirmado que iria armado até sua residência para “pegá-la”. A mulher declarou temer pela própria segurança.

O levantamento também registra três ocorrências relacionadas à violência doméstica contra a mesma ex-companheira. A primeira, de 2021, envolveu uma suposta ameaça, mas foi arquivada porque a vítima não quis representar criminalmente contra ele.

Em 2024, um inquérito apurou ameaça e vias de fato contra a ex-companheira. Nesse caso, Mackiewicz foi condenado criminalmente, e a sentença transitou em julgado, não cabendo mais recurso.

Em 2025, outro inquérito foi instaurado para apurar suspeitas de ameaça e lesão corporal contra a mesma mulher. No formulário de avaliação de risco, a vítima declarou que o agricultor teria usado arma de fogo e possuiria fácil acesso a armamento.

Mackiewicz também foi investigado, em 2021, pela possível prática de crimes ambientais previstos nos artigos 38 e 38-A da Lei de Crimes Ambientais, relacionados a danos à vegetação de preservação permanente e à Mata Atlântica. O documento policial informa que houve declínio de competência da Justiça Federal, mas não aponta condenação nesse procedimento.

Embora tenha afirmado aos profissionais da seguradora que era CAC, a Polícia Civil não encontrou arma de fogo registrada em seu nome no Sistema Nacional de Armas. O relatório policial ressalta, contudo, que já havia informação anterior sobre o suposto uso e o fácil acesso do agricultor a armamento.

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