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Endividamento recorde: 1 em cada 3 empresas brasileiras opera no vermelho em 2025
Foto: Pixabay
O Brasil vive em 2025 um dos piores cenários de endividamento empresarial desde o início da série histórica. Dados da Serasa Experian e do Mapa de Empresas mostram que mais de 8 milhões de empresas estão negativadas, das quais 7,6 milhões são micro e pequenas, segmento responsável por grande parte dos 102,4 milhões de trabalhadores formais do país. O passivo acumulado supera R$ 130,5 bilhões, o que indica que 1 em cada 3 empresas formais opera no vermelho, com fluxo de caixa comprometido.
Em paralelo, segundo o Banco Central, o crédito corporativo alcançou R$ 6,6 trilhões em abril de 2025, equivalente a 54,9% do PIB, o maior nível em cinco anos, um contraste que evidencia o uso crescente e desordenado de empréstimos sem planejamento financeiro.
A deterioração financeira tem múltiplas causas: queda de faturamento, juros altos, retração no crédito, custos operacionais crescentes e ausência de gestão especializada. A situação se agrava com a chegada da Reforma Tributária e um ambiente de crédito mais caro.
Para Marcos Pelozato, advogado, contador, conselheiro e especialista em reestruturação empresarial, a cultura empresarial brasileira contribui para o agravamento da crise. “O empresário brasileiro costuma buscar ajuda somente quando a situação já fugiu do controle. Quando o caixa trava, o fornecedor fecha a torneira e a dívida explode, as alternativas ficam muito mais restritas”, afirma.
Ele alerta que essa postura aumenta a mortalidade das empresas, sobretudo entre micro e pequenas. “Se mais de 7,6 milhões de empresas estão em risco e você faz parte desse grupo, esperar não é uma opção. A omissão é uma escolha pelo fechamento”, diz.
Os efeitos já são sistêmicos: empresas de menor porte têm perdido capacidade de honrar compromissos, renegociar com fornecedores e manter estoques, cenário similar ao registrado em estudos anteriores que apontavam 7,3 milhões de negócios com dificuldades operacionais e mais de R$ 170 bilhões em dívidas.
A fragilidade não afeta apenas o caixa, mas também o emprego. “Quando uma microempresa fecha, não é só o dono que perde. São milhões de famílias que sentem o impacto, porque esse segmento sustenta boa parte dos postos de trabalho formais”, explica Pelozato.
Com o avanço do endividamento, ele destaca que restam duas rotas: processos profundos de reestruturação, como o Conselho de Crise, ou a Recuperação Judicial. “A Recuperação Judicial não é uma confissão de fracasso. É uma ferramenta legal que protege empresas viáveis.”
Pelozato também critica a falta de preparo técnico. “Falta conhecimento técnico entre empresários e até entre profissionais que deveriam orientar esses negócios. Sem essa preparação, muitas empresas acabam fechando sem sequer considerar alternativas legais de reorganização”, afirma.
“A cada mês de atraso, a dívida cresce, o caixa diminui e as chances de recuperação despencam. Reorganizar o passivo, renegociar dívidas e comprovar a viabilidade econômica são etapas que precisam ser iniciadas imediatamente”, completa.
Fluxo de caixa
Além da reestruturação, especialistas apontam que tecnologia e gestão integrada são hoje peças-chave para evitar o colapso. Para Reginaldo Stocco, CEO da vhsys, empresa de tecnologia especializada em soluções de gestão empresarial online, o problema não é o crédito: é a falta de controle.
“O crédito não é o vilão: o problema é a falta de visibilidade sobre o fluxo de caixa. Quando o empresário não tem controle das contas a pagar e a receber, perde a capacidade de planejar, e o crédito que deveria ser ferramenta de crescimento acaba se tornando fonte de endividamento”, afirma.
Com micro e pequenas empresas representando mais de 95% dos CNPJs ativos, segundo o Sebrae, e operando com margens apertadas, a ausência de gestão faz com que muitas recorram a novos empréstimos para cobrir dívidas antigas, alimentando o ciclo da inadimplência.
Stocco defende que sistemas integrados de gestão, que conectam vendas, estoque, financeiro e relatórios automáticos, oferecem previsibilidade e evitam surpresas no caixa. Ele resume o que considera o principal caminho de sobrevivência: “Gestão financeira é, hoje, a principal linha de defesa contra o endividamento. E quem entende isso não apenas sobrevive; também cresce de forma sustentável”.