Mudança de mentalidade

Reforma Tributária e a nova lógica de formação de preços no Brasil

Empresas precisarão revisar estruturas de custos, cadeias de suprimentos e políticas comerciais

*Tiago Juvêncio é advogado tributarista. Foto: Divulgação

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Por Tiago Juvêncio*

A Reforma Tributária sobre o consumo representa uma das mudanças mais estruturais já feitas no sistema econômico brasileiro, não apenas pelo impacto na arrecadação, mas principalmente pela forma como altera a lógica de formação de preços.

O modelo atual é marcado por cumulatividade, distorções entre setores e pouca transparência, o que dificulta tanto a gestão empresarial quanto a compreensão do consumidor sobre o que, de fato, está sendo pago. A substituição por tributos como IBS e CBS introduz um sistema mais uniforme, baseado no valor agregado, o que tende a reorganizar toda a dinâmica de precificação no país.

Um dos efeitos mais relevantes dessa mudança está na transparência tributária. Ao tornar os impostos mais visíveis, seja na nota fiscal ou até na composição do preço, cria-se uma nova percepção de valor. O consumidor, que antes não distinguia claramente o peso dos tributos, passa a ter maior consciência da carga embutida nas operações. Isso pode gerar uma sensação inicial de aumento de preços, mesmo quando não há elevação real, mas apenas uma mudança na forma de apresentação. Trata-se, portanto, de uma transformação não apenas econômica, mas também comportamental.

No âmbito empresarial, o impacto é ainda mais profundo. A formação de preços deixará de seguir padrões historicamente adaptados a um sistema complexo e passará a exigir uma lógica mais técnica e estratégica. Empresas precisarão revisar estruturas de custos, cadeias de suprimentos e políticas comerciais. A correta apropriação de créditos tributários, por exemplo, passa a ter papel central na definição de margens. Nesse contexto, erros de precificação podem comprometer diretamente a rentabilidade, enquanto uma boa adaptação pode gerar ganhos competitivos relevantes.

O período de transição tende a ser especialmente desafiador. A convivência entre dois modelos tributários exige ajustes operacionais, atualização de sistemas e capacitação das equipes. Durante essa fase, é esperado um ambiente de maior instabilidade, com oscilações de preços e possíveis inconsistências. Esse cenário reforça a necessidade de planejamento e acompanhamento constante, tanto por parte das empresas quanto dos profissionais envolvidos na gestão financeira e tributária.

Por fim, a reforma amplia o papel estratégico da gestão tributária dentro das organizações. O tributo deixa de ser apenas um custo a ser apurado e passa a integrar diretamente a tomada de decisão. Precificação, competitividade e posicionamento de mercado passam a depender, em grande medida, da capacidade de interpretar corretamente o novo sistema. Assim, mais do que uma mudança legal, a reforma impõe uma mudança de mentalidade, exigindo maior integração entre as áreas fiscal, financeira e comercial para garantir sustentabilidade e eficiência no longo prazo.

*Tiago Juvêncio é advogado tributarista.