Opinião

Planejamento sucessório sem liquidez expõe famílias e empresas, e seguro de vida ganha papel estratégico

Sucessão empresarial, quando não organizada, tende a gerar desalinhamentos entre sócios e herdeiros, além de afetar decisões estratégicas

Izabela Rücker Curi
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Por Izabela Rücker Curi*

O planejamento sucessório ainda é estruturado, em muitos casos, sem a devida atenção à liquidez — um ponto que pode comprometer tanto a organização patrimonial quanto a continuidade de empresas familiares. No Brasil, é recorrente que patrimônios relevantes estejam concentrados em imóveis ou participações societárias, o que torna o processo de sucessão patrimonial mais complexo e sensível.

A ausência de recursos imediatos no momento da sucessão costuma gerar impactos práticos significativos. Entre eles, a necessidade de venda de ativos em condições desfavoráveis, dificuldades na equalização entre herdeiros e tensões que afetam diretamente a estabilidade familiar e empresarial. Esse tipo de situação tende a se intensificar à medida que cresce a preocupação com planejamento sucessório e governança patrimonial no país.

Além disso, custos relacionados à transmissão de bens podem representar um peso significativo no processo sucessório. Em determinadas situações, a carga tributária incidente pode variar entre 12% e 15% do valor do patrimônio, o que reforça a importância de planejamento prévio e organização financeira adequada.

Nesse movimento, o seguro de vida tem ganhado espaço como ferramenta de planejamento sucessório. Sua principal característica — a disponibilização de recursos de forma rápida aos beneficiários — contribui para trazer liquidez, previsibilidade e maior segurança no momento da sucessão. A utilização do seguro de vida na sucessão patrimonial permite equilibrar estruturas em que o patrimônio não é facilmente convertido em dinheiro. Esse ponto se torna ainda mais relevante em empresas familiares, onde a sucessão envolve não apenas a transferência de bens, mas também a continuidade da gestão e das operações.

A relevância do tema se amplia quando se observa o perfil das empresas no Brasil. Negócios familiares representam cerca de 90% das empresas do país, respondem por aproximadamente 65% do PIB e são responsáveis por 75% dos empregos formais. Ainda assim, a taxa de continuidade ao longo das gerações é limitada: cerca de 30% dessas empresas chegam à segunda geração, e menos de 10% alcançam a terceira. Esse cenário reforça como a ausência de planejamento sucessório estruturado pode impactar diretamente a longevidade dos negócios. A sucessão empresarial, quando não organizada, tende a gerar desalinhamentos entre sócios e herdeiros, além de afetar decisões estratégicas.

A integração do seguro de vida com instrumentos como acordo de sócios, testamento e estruturas de holding contribui para organizar esse processo de forma mais previsível e juridicamente consistente, especialmente quando há necessidade de liquidez imediata. A legislação brasileira atribui ao seguro de vida um tratamento específico, que o diferencia de outros ativos no contexto da sucessão. Em determinadas hipóteses, os valores destinados aos beneficiários não seguem a lógica tradicional da partilha, o que exige atenção na definição da estratégia.

A definição de beneficiários, os valores segurados e sua compatibilidade com o planejamento sucessório como um todo precisam ser analisados de forma integrada. A falta de alinhamento entre esses elementos é um dos pontos que mais geram insegurança jurídica. A organização da sucessão patrimonial deixou de ser apenas uma questão sucessória e passou a integrar a agenda de governança de famílias empresárias. Nesse movimento, o seguro de vida vem se consolidando como ferramenta importante para trazer liquidez, equilíbrio e maior previsibilidade às estruturas patrimoniais.

*Izabela Rücker Curi é advogada e sócia do escritório Rücker Curi Advocacia e Consultoria Jurídica